Monday, March 23, 2026

Veia musical

 Não tem explicação. Não vem de uma família de músicos. Mas adora (quase) tudo quanto é som. 

Seu pai gosta de música, sabe muito, mas não se compara ao seu dom. 

No primeiro acorde, você identifica a música e o artista. Logo vem toda a história sobre a composição. 

Sabe o momento da criação, se rendeu prêmios e arrisca até em falar que uma nota ou outra é plágio. 

Desgosta das traduções e versões na maoioria das vezes. Quer mesmo é escutar as originais. 

Dói no coração quando descobre as falhas humanas de um artista talentoso e tenta se ater à arte. Faz bem, se não vai se decepcionar com todo mundo, seres imperfeitos. 

Mas a criação, essa pode beirar a perfeição. Só depende da sua opinião.

Monday, March 9, 2026

Naversário é mais bonito

Toda criança deveria inspirar um dicionário, mas as bilíngues precisam fazer isso. 

Eu não me lembro de todas, mas você facilitava a pronúncia de um bocado de palavras da língua de Camões. 

Aniversário era Naversário. Televisão, tivisão. 

A cadeira combina mais com sentador. 

E até hoje as pernas não falham, elas falem - do verbo falir - com a dor. 

Sem dizer os palavrões como temperamental que soa bem melhor como taparamental. 

Português é, com certeza, um idioma mais complexo do que o inglês. Eu acho. 

Mas fica tão mais fofo em gringuês. 

Monday, March 2, 2026

Bonecas

Tem coisas que devem ser escritas para serem lembradas para sempre. Eu sempre digo isso, mas nem sempre o faço. 

Lembramos outro dia, por exemplo, de como você gostava de brincar de boneca e até hoje não tinha escrito sobre isso. 

Você tinha muitas filhas e cuidava bem delas. Era a mommy. 

Elas tinham nomes engraçados. Lembro bem da Omelete e da Abelha. 

Na hora de sair, nunca esquecia a bolsa, o telefone, o batom e uma filha. Aliás, estava sempre ocupada ao telefone e empurrando uma de suas bebês. 

Gostava de dar banho e trocar fraldas. Elas ficavam de ponta cabeça e nem reclamavam. Comiam bastante e levavam bastante bronca. Igual a Gigi. 

Você as colocava debaixo do braço para dormir. Não era assim que eu fazia com você, mas era assim que se aconchegava no seu pai. Devia ser confortável. 

À medida que você foi crescendo, as bonecas foram diminuindo e as preferidas passaram a ser as Barbies e as Princesas. Era muita estória. Tinha horas que você deixava elas pra lá porque havia cansado de falar. 

Já não era só mãe. Agora era intérprete das personagens da sua imaginação. 

Eu gostava de assistir. Às vezes filmava de longe. E em muitas outras eu até tinha participações especiais na brincadeira. 

Hoje algumas delas ainda te acompanham, embora estejam no fundo do armário. É difícil dizer adeus. 

Monday, February 23, 2026

Caracóis

 Você nasceu sem cabelo. Por muito tempo era só uma penugem. 

Seu pai diz que foi desejo dele. Acha lindo bebê careca. E realmente você era uma bebezinha linda. 

Você é linda. 

O cabelo liso cresceu um pouco e os cachinhos na ponta me lembravam uma boneca que tive na infância: a Risadinha. Quem é dos anos 80 deve se lembrar. 

Esse "corte" te acompanhou por anos sem nunca ter sido cortado. Entre os dois e três anos, você colocava uma toalha na cabeça, era o seu cabelo comprido. O bom é que trocava de cores toda hora.

Uma amiga me questionou: "Por que você não deixa o cabelo dela crescer?" 

Eu nunca cortei, Fernanda.

Aos poucos, bem devagar, o cabelo foi crescendo. Liso e encaracolado nas pontas. Disseram que quando cortasse o cabelo, os cachos desapareceriam. Não aconteceu. 

Pelo contrário. Agora o cabelo é mais encaracolado do que liso. Você briga com os caracóis. De onde vieram? 

A origem não tem explicação genética aparente, mas eu tenho uma teoria: é um dos detalhes que te fazem única. 

É é lindo!

Monday, February 16, 2026

Personalidade

Mais uma vez você me surpreendeu. Durante uma conversa trivial de almoço você dizia como o seu nariz é parecido com o do seu pai. Eu acho que tem uma pouco do dele e um pouco do meu. Você diz que isso é impossível. 

Eu me gabei dizendo que seus traços podem até ser a réplica do Beto, mas o conjunto fica parecido comigo. De novo, me retrucou ao apontar que cada vez mais pessoas falam que você se parece mais com ele. Antes era o contrário. 

Então você é a cara do seu pai e puxou a minha personalidade. Mais uma resposta que eu não esperava: personalidade cada um tem a sua. 

É verdade, você está certa. Você é única e nem se parece tanto com o seu pai, só um pouco. 


Monday, January 26, 2026

Orgulhosa de criar uma "Good" americana

Me orgulho de você, Gigi, em muitas coisas, mas a que mais me faz vibrar é o seu comprometimento com o bem. 

Muita gente fala que americano é prepotente e arrogante. Eu sei que não. O que se vê hoje nos Estados Unidos não é normal, não pode ser. 

Ver você reagir a tudo isso é motivo de muito orgulho. Você usa a sua rede social para se posicionar sobre o que defende. Sobre os imigrantes, por exemplo, uma causa tão próxima a nós, você tem uma visão clara. Não é uma adolescente alienada. 

Em tempos de Trump, você age. A sua revolta diante dos assassinatos de Renee Good e Alex Pretti pelo ICE em Minneapolis me traz esperança.

Você não tem medo de escancarar a sua opinião nas redes sociais, afinal é para isso que elas servem, né? Uma fonte de expressão, não para criar uma realidade paralela. 

Além disso, quem cala é conivente com a situação.

O povo americano é você, Gigi. Solidária, defensora da igualdade e da liberdade. Inconformada com a injustiça e certa de que a morte de "Good" citizens não vai ser em vão. 

Tenho orgulho de educar uma boa cidadã [americana]. Você representa milhares de "Good" American citizens. 

E isso é de berço. Desde bebê, você me acompanha no ativismo. E eu também me orgulho disso.

Puerpério: cada um tem o seu


Outro dia vi um relato da jogadora de vôlei Key Alves sobre puerpério e puxei na memória essa nossa fase. Foi desafiadora, mas não terrível como tem dito a influenciadora. 
 

Quando você nasceu, não se falava muito sobre isso. Eu nem sabia definir por nome, na verdade. Lembro da minha avó falar sobre resguardo. Antigamente nem o cabelo podia-se lavar o cabelo até o quadragésimo dia após o parto.

A verdade é que cada mulher vive de um jeito por uma série de fatores. Por isso, é importante compartilhar sem romantizar nem aterrorizar.
 

A jogadora, acostumada com condicionamento físico, reclama do cansaço. Ela conta que a Rosamaria trocou o dia pela noite. Você fez isso por um tempo também. Dormia durante o dia na babá e me fazia dançar a noite inteira com você. Amamentar também dava certo. 

Deixa eu explicar desde o começo. Você nasceu numa terça-feira e duas semanas antes do previsto, eu ainda estava trabalhando. Na verdade nunca deixei de trabalhar. 

O fim de semana já me avisava que alguma coisa estava mudando. Pela primeira vez, os sapatos não couberam. Meus pés estavam bem inchados, era a primeira vez que isso acontecia.

Na segunda-feira, participei de uma reunião logo pela manhã e lá me disseram que você chegaria a qualquer momento. Minha barriga parecia bem maior do que a última vez que me viram - dias antes-  e eu mal cabia entre a cadeira e a mesa. De lá, peguei o metrô e fui para o escritório. 

Eu liguei para o hospital porque eu estava tendo um corrimento líquido há uns dias. Eu já tinha reportado. Acharam que eu estava fazendo xixi aos poucos, mas finalmente resolveram investigar. Era o meu líquido aminiótico. 

O seu parto foi induzido. Foram 24 horas para você finalmente você colocar o rostinho para fora pouco antes das 22 horas. Linda!

Na manhã seguinte você foi levada para o Children's Hospital e eu recebi alta. Eu saí andando, estava bem, mas chorava rios. Foi difícil ver os médicos te levando. Não era nada sério, apenas precaução. Conto isso em uma próxima vez. 

Mas isso levou uma semana. Eu te visitei todos os dias. Passava o dia sentada ao seu lado. Te amamentava e tirava muito leite para que não te faltasse à noite. Eu não podia dormir com você. Todos os dias, as enfermeiras me "convidavam a sair".

Em casa, era um silêncio absurdo e triste. O bercinho vazio me fazia chorar. 

Finalmente você veio para casa. Passei mais duas semanas afastada do trabalho. Um luxo para aquela época nos Estados Unidos.  

Nem 40 dias,  muito menos seis meses. Eu tive duas semanas de afastamento remunerado. A terceira foi por minha conta. 

Sua tia me ajudou com o primeiro banho e me ensinou muitas coisas. Amamentar não era um problema, era a solução. Chorou, mamou. 

Você dormia em um bercinho do lado da minha cama embora já tivesse o seu quarto porque era mais fácil. Depois passou a dormir comigo na cama porque facilitava amamentação e eu me cansava menos. Afinal, a rotina  do trabalho me esperava na manhã seguinte.

Agora quando o choro era cólica era mais difícil. Eu chorava junto. Fiquei mais sensível, mas o fato é que sou chorona mesmo. 

Consegui reduzir a jornada fora de casa e tentei escalar um esquema de ajuda entre eu, uma babá - a Meire queridíssima - e o seu pai. Não deu certo.

Tive que levar você para a babá, comum entre os brasileiros nos EUA. 

Key Alves diz que só vai contratar babá depois de um mês porque o bebê precisa da mãe. Acho que ela está certa. Quem pode, pode. 

Aliás, se eu puder dar um conselho de mãe de primeira viagem de licença ou que trabalhe: Use e abuse do privilégio de dormir enquanto o bebê dorme. Esse foi o conselho do pediatra quando eu reclamei da sua ausência de sono. O doctor Osler disse que se você estava se alimentando e brincando, estava dormindo o suficiente e o problema da falta de dormir era meu. 

Não levei a mal. Ele era um querido que me apelidou da "mãe mais sorridente", embora com olheiras profundas. 











Monday, January 5, 2026

Um ano com novas tradições e velhos costumes

Desde que você aprendeu a escrever fazemos a nossa lista de objetivos no ano novo. Esse também é o momento de analisar se conquistamos o que definimos para o ano anterior. De 2025 para 2026 foi diferente. 

Achei bom. A mudança de tática pode colocar a gente em uma posição mais favorável no jogo. Embora 2025 tenha sido um ano difícil,  a avaliação dos últimos 12 meses foi positiva. Poderia ter sido ainda mais desafiador. 

Além de não colocar no papel, descobrimos, finalmente, que os desejos devem ser feitos a cada uma das 12 uvas degustadas. Já tínhamos essa tradição, mas erramos o número. Não sei porque sempre pensamos que eram 7, mas são 12 para representar os meses do ano. Óbvio, né?

Até isso achei bom. Penso o seguinte: se tívéssemos fazendo tudo certo e mesmo assim não cumprindo toda a nossa lista, ia ser bem mais frustrante. Dessa forma esperança aumenta. 

Na internet você encontrou uma novidade. Começar o ano com uma nota de dois dólares no pé direito para atrair sorte e garantir que o dinheiro "caminhe com a pessoa durante todo o ano".  

E não foi uma nota de dois dólares qualquer. Seu pai a guardava na carteira há anos. Ele disse que recebeu de alguém especial e agora passava para você. Tudo vai dar mais certo. 

Mas de um ritual eu não abro mão e espero que você também não. A prece. 

"Deus guie os nossos caminhos nesse ano na trilha da paz, justiça, saúde e prosperidade. Amém". 

Aqui começa o nosso 2026. 

Monday, December 22, 2025

Papai Noel (não) existe

 Nem sei porque não escrevi sobre isso antes. Já se vão sete anos desde o último Natal que o bom velhinho era uma figura esperada e presente. 

Por motivos que já contei, há um bom tempo você desconfiava dessa estória. Mas foi durante um passeio no shopping, já próximo à Páscoa, que mais uma vez você me perguntou: 'Papai Noel existe?'. 

E eu, como já vinha fazendo há um bom tempo, respondi com outra pergunta: 'O que você acha?'. Dessa vez a sua resposta mudou tudo. Ao dizer não, eu que quis questionar: 'Por que'?. 

De pronto, a menina da Geração Z respondeu: 'Pesquisei no Google'. 

Ah, Gigi, eu imagino o quanto foi decepcionante para você descobrir que as cartas que  você escrevia iam para a minha caixa de recordação e os bilhetes que acompanhavam os presentes eram fruto da minha imaginação. O leite e as cookies também eram para mim, mas o amor era e é todo seu. 

Fico feliz, e aliviada, que a revelação também não tirou o brilho dessa época. Você ama decorações, assiste todos os filmes de Papai Noel, segue as tradições e deseja que fosse Natal o ano inteirinho. 

Além disso, como sempre foi, entende que o mais importante é o nascimento de Jesus. E esse Espírito nasce no nosso coração todos os dias, mas a gente tem que deixar. Lembre-se sempre disso, não é fantasia. 

Agora de volta àquele passeio ao shopping a maior decepção estaria por vir. Sem que você perguntasse, e apostando na sua boa reação ao descobrir que Papai Noel existe de outro jeito, seu pai resolveu revelar o mistério do Coelhinho da Páscoa. Aí foi um chororo que eu conto outro dia.

Monday, December 8, 2025

Eu te ensinei a falar, hoje você me corrije

Eu te ensinei a falar em português. Em inglês, você apreendeu sozinha e através dos cartoons e depois na escola. Por isso, é perfeito e nato. O seu “brasileiro” é fluente, avançado eu diria. O meu inglês continua o mesmo e você me corrige.

Seria um erro tentar te ensinar a falar em inglês. Sou imigrante e cometo deslizes, embora eu me gabe que o sotoque do norte do Paraná é um aliado, pelo menos quando se trata do sotaque da Nova Inglaterra e arredores.

Aliás, você é a americana mais parananense que conheço. O “r” puxado deixa o seu pai de cabelos em pé. Você não ‘naisceu’, você nasceu.

E é justo. Quando você tinha uns dois anos ninguém entendia o que você falava. Eu sabia tudo e traduzia para o resto do mundo – em inglês e português – o que você estava dizendo. Era incrível como a nossa comunicação era eficiente.

Com o tempo, você falava mais inglês. O medo se transformou numa naturalidade que eu queria ter.

Não sei se você se lembra, acho que já contei em outro momento, que aos três anos você só queria ir em lugares que falavam português. Tínhamos passado uns meses no Brasil e o idioma ficou mais próximo.

Aos poucos, as coisas foram se encaixando. Hoje você corrige o meu inglês e eu adoro ouvir as confusões que você faz em português. Outro dia você falou que “a perna faliu” ao invés de falar “a perna falhou”. Morre

Eu ainda vou escrever um dicionário para tantas palavras que fazem mais sentido que as reais. São pérolas e valem um post.

Monday, September 15, 2025

Coisas de general

Quando a gente está no meio de uma discussão, ou debate, não sei como definir, fico pensando como você vai ser com a sua filha. Lembro de como minha mãe era e tento não repetir as coisas que eu não gostava que ela fazia. Confesso que nem sempre é possível. 

Nessa hora, visualizo você, no futuro, sendo chamada de general. É assim que você me chama quando eu começo a enumerar a lista do que precisa ser feito. E nem é muito. Aliás, já no primeiro item vem o elogio.

Para um "alguma coisa" sempre tem um "mas".

Adolescente é contestador. Eu sou contestadora até hoje, mas acho que era menos na sua idade. Ou minha mãe era mais general. 

Minha avó dizia que eu tinha resposta para tudo e minha mãe nem sabia. Falava pelos cantos, por trás. Não havia essa abertura que tem comigo. Talvez seja coisa da época. 

Nossa casa certamente não é um quartel, mas um dia você vai entender que sempre haverá regras, em qualquer lugar. E para que as coisas  fluam bem é preciso seguir um roteiro ainda que nem tudo saia como no script. 

Eu não sou um general, sou mãe. Um dia você vai entender.

Monday, September 8, 2025

Você pode ser o que quiser

'Você pode ser o que quiser' parece um clichê. E é. Mas também é uma grande verdade. 

Você vai se lembrar disso a cada etapa da vida. Vai dizer que eu tinha razão, mas não gostava do meu tonzinho. 

E vai chegar onde quiser. 

Mas como tudo é um processo tem que pagar o preço. O nosso caminho depende do que decidir enfrentar. 

Escolher o que gosta de fazer facilita, embora isso não signifique facilidade. 

Muitas vezes o maior desafio vai ser encarar você mesma. Ter a ousadia para enfrentar o fracasso antes do sucesso chegar. Entender que o sucesso também é subjetivo. Pode ser milhares de seguidores ou gente que te acompanha porque realmente entende a sua proposta. A soma desses dois é sempre o melhor, concordo. 

Comece mesmo que não esteja pronto. Arrisque. Você pode. 

O importante é ter a manha para filtrar as críticas, se importar menos, fazer o bem sempre e ser feliz. 

Você pode (e vai) ser o que quiser. 


Monday, August 25, 2025

Cada movimento é um flash

Ter fotos de tudo é bom. Quando você era pequenininha cada momento era um flash e você gostava. Fazia pose e pedia para registrar os momentos. 

Agora os rolos de imagens do telefone e da nuvem funcionam com um túnel do tempo que nos remete àquelas experiências. Eu dou risada sozinha assistindo aos vídeos e vendo as fotos. 

Esses registros também são as provas daquilo que um ou outro não consegue lembrar. 

Mas depois que o filho cresce a mente da gente tem que ficar mais esperta. A fotógrafa agora tem que ser à paisana e quando é flagrada ouve: "Ah, mãe. Apaga isso!" ou Deixa eu ver! Tô horrorosa. 

Postar numa rede social é um atentado contra a privacidade e o pior é que você tem razão. Depois da denúncia do influenciador Felca, fiquei mais cautelosa. O conhecimento nos traz isso. 

Fotos que parecem inofensivas imagens de momentos para compartilhar com a família longe colocam você em risco se cair nas mãos erradas. Será que dá para enviá-las por WhatsApp para os avós?

Então fique tranquila. Para as redes as fotos não vão. Nem para cá. Só se atenderem os padrões de segurança, mas sobre isso a gente fala outro dia. 

Monday, July 28, 2025

O dia em que você me achou

Você vai odiar a história que vou contar hoje, diz que eu não tenho que contar isso para ninguém.  

Foi o dia mais desesperador da minha vida. Me senti a pior mãe do mundo quando te perdi na praia. Sim, eu fiz isso e quase morri. Mas você me achou. 

Fomos à Cocoa Beach, o cenário da famosa série de I Dream of Jeannie que o seu pai adora, quando você tinha 8 anos. Chegamos por volta das 10 horas e nos acomodamos ao lado do posto de salva-vidas, sempre achei mais seguro.

Aos poucos a praia foi enchendo de gente. Nesse tempo, você foi buscar água para fazer o nosso castelo. Era logo ali, mas em um minuto você sumiu. Tentei te avistar. Nada!

Avisei ao seu pai que você havia sumido. Ele virou um atleta e correu pra lá e pra cá perguntando se alguém havia visto uma menininha de biquini rosa. Nada.

Tia Suzana pegou o telefone e mostrava a sua foto. E eu questionando sem parar os salva-vidas se era possível você ter se afogado.

Papai temia um sequestro. São tantas crianças que desaparecem todos os dias, você não podia ser mais uma. 

Enquanto tio Bolacha continuava correndo de um lado para o outro, seu pai teve a brilhante ideia de que eu deveria ficar com o meu telefone. Você sabia o meu número. Ele tinha criado uma música e você cantarolava essa sequência.

Não deu outra. O telefone tocou. Eu não sei quanto tempo passou, mas uma mulher me ligou assim que eu peguei o telefone e disse que estava com você.

A essa altura a polícia já havia sido acionada. O helicóptero sobrevoava a praia. E eu estava desesperada.

Você andou mais de 30 minutos com o baldinho cheio de água até ter coragem de pedir para a moça me ligar. Eu fui de carona no buggy dos salva-vidas para te buscar. O policial já estava ao seu lado.

Eu agradeci aquela mulher, que eu nunca soube o nome, milhares de vezes. Ela deve ter me achado uma doida desvairada: como pode perder uma menininha?

Voltamos com o baldinho cheio de água. Papai estava muito bravo, mas era desespero.

Eu não sei como eu não desmaiei. Me senti a pior mãe do mundo. E fui. 

Mas você me encontrou. Como sempre, foi muito mais esperta do que eu. 

Monday, July 14, 2025

Patriota de opinião

 Você tem personalidade forte e opinião formada sobre tudo. Tudo mesmo. 

Nesse momento tão injusto [na minha concepção] nos Estados Unidos, você decidiu fazer uma homenagem em forma de protesto no Dia 4 de Julho. Cidadã americana nata, consegue ver mais motivos para protestar do que para celebrar a independência do país. 

Mas o patriotismo, que é bonito do americano, pesou e você me perguntou se não seria vista com bons olhos por isso. Como te disse, isso não importa. O importante é expressar a sua visão de forma respeitosa. Afinal o 4 de Julho não apaga o que vivemos hoje. 

Aliás, o protesto é a maneira mais genuína de ser patriota. Lutar pelo direito de ser Estados Unidos, terra da liberdade e da oportunidade.


Monday, July 7, 2025

Lista de Compras

Remexendo na caixa de lembranças, achei uma lista de compras. Você nem sabia escrever, se perdia entre o inglês e o português, mas queria fazer. 

Me lembro que a primeira tentativa foi colocar a primeira letra do item e desenhar o produto. Essa eu não encontrei. 

Em 2017, quando você nem tinha completado 8 anos, a lista evoluiu e você ficou metida. Escrevia em inglês e português, com erros ortográficos e invenções maravilhosas de palavras, mas com a coragem, sem medo de errar,  que te levou a ser fluente nos dois idiomas hoje. 

Em tempo: suas versões de macarrão (macahow) e arroz (ahoyce) são as minhas preferidas.

Isso é para te lembrar que tudo é possível. Você tem que tentar e começar. Depois treinar e melhorar. 

Uma relação de compras parece simples. Naquela época foi um desafio. Você transformou em diversão e se superou. 

Dá para usar essa tática de novo, não dá?


Monday, June 30, 2025

Relação complicada e perfeita

A gente se preocupa o tempo todo. Pode parecer que eu não percebo, não me importo. Mas o fato é que mãe, ou pelo menos grande parte das genitoras, tem como preocupação uma característica. 

Ser mãe de adolescente para mim, de longe, tem sido o mais difícil. Não sei se é porque o grau de dificuldade vai subindo gradativamente ou se essa fase é realmente a mais desafiadora. 

Dar espaço para você desenvolver a sua personalidade e, ao mesmo tempo, impor limites e mostrar que as coisas nem sempre são como você vê [ou sente] soa contraditório. Vivo esse impasse todos os dias. 

Tento o melhor, mas não é o suficiente. Tenho que me esforçar mais e nem sei se consigo. A paciência escorre pelo ralo. E você me olha com o mesmo olhar que eu te lanço.

Você é um vulcão de emoções. Tudo é maior e eu fico menor.

Se discordo de uma opinião sua, você diz que não te entendo. Se vou te mostrar o outro lado, não te deixo falar. 

A gente briga. E quase sempre depois a gente ri. Seu pai diz que estamos deixando ele louco, nunca sabe quando nós estamos brigando. 

Mas a vida, por hora, é assim. Uma adulta que busca referência na própria adolescência e pode pecar se esbarrar na comparação. Enquanto você experimenta um momento totalmente novo. 

Só te digo uma coisa. Tenta entender a sua mãe e ouve os conselhos tortos, eles têm alguma valia. 

Depois a gente chora de rir das memes entre filhas e mães. Parece até que tem câmeras espalhadas pela casa. 



Monday, April 7, 2025

Sweet Sixteen

 Meu sweet dream, hoje você completa 16 anos. Não vai ter festão, mas tem muita celebração para todos os dias da sua vida. 

Cada um comemora do jeito que quer e tem gente que questiona: e a festa? A nossa é assim,  todo dia. Na fila do show, na caminhada com os cachorros, na viagem de carro, no atraso do avião, em conhecer lugares diferentes e repetir os mesmos pratos. 

E como toda festa tem perrengues e contratempos que nos tiram a paz para depois virar histórias para contar. É a festa da vida. 

Eu adoro festejar com você todos os dias. Gosto da tua gargalhada e quero suprimir o seu choro. 

Há 16 anos, caminhamos juntas. Como é bom ser sua mãe, de conversar sobre tudo e muito. 

O futuro é logo ali, mas não tenha pressa. Você não é todo mudo, orgulhe-se da sua história. É linda de viver. 

Também não é preciso ter medo, seguro a sua mão, e dou até um chacoalhão para gritar: você pode tudo o que quiser. 

Obrigada por ser minha companheira e vamos adiante porque tem muita festa. 

Happy Sweet Sixteen!


Monday, March 17, 2025

Arroz e Feijão

Sempre que a gente lembra da sua primeira infância vem esse episódio à tona. 

Em nossa primeira viagem longa de carro você tinha 2 anos e se comportou muito bem de Boston a Altantic City. Parávamos com bastante frequência para você se distrair, esticar as pernas e comer. 

Você adorava passar nas lojinhas e se dependesse da sua vontade, comprava um negocinho em cada lugar. Mas não fazia escândalo a cada negativa. 

O objetivo ali era ser divertido, mas o não faz parte. 

Pensei que o lado consumista seria compensado por lanchinhos. Essas paradas de beira de estrada não têm muita opção. Para ir em restaurantes teria que entrar nas cidades e isso atrasaria muito a viagem. 

Então decidimos por um dia de fast (trash) food, reforçado pelas frutinhas que levei de casa e outras que encontrava pelas lojas de conveniência. 

Mas para a minha surpresa, você sentiu falta da comidinha de casa. 

Já no fim do dia, a poucas horas do nosso destino, fizemos a última parada. Ali não pensamos em comer. Já tínhamos comido um sanduíche e você os seus chicken nuggets. Foi quando você me perguntou se não iríamos jantar. 

- Já jantamos, Gigi. Lembra? Paramos no McDonald's, te recordei. 

Você prontamente respondeu: - Não, jantamos: Arroz, feijão, ...

Caímos na risada. Eu nunca imaginei que você ia sentir falta de arroz e feijão.

Hoje a relação com o casadinho brasileiro não é mais tão fiel e a preferência é pelo velho hamburguer americano. Mas um arroz e feijão sempre cai bem, né?



Monday, March 10, 2025

Dia Internacional da Mulher

Não queira ser forte ou guerreira. A gente não precisa carregar o mundo nas costas. Queremos viver, não resistir.  Orgulhe-se de ser mulher, mas não do que  ainda precisa passar pelo simples fato de não ser homem.

Todos os dias da minha vida vou repetir que você pode ser o que quiser e não escondo que isso tende a ser difícil. Mas quero que você tente.

E não importa a profissão que você escolha ou o país que você viva. Não importa a sua vontade nem a sua competência,  muitas vezes vai ter que falar mais alto para ser ouvida.

Vaidade deveria ser adjetivo masculino. E isso não é feminismo, é realidade.

No mundo real você tem que ser fêmea e matar um leão por dia como se fosse uma obrigação fazer tudo e pensar em todos.  O  prêmio de consolação é ter uma data para lembrar uma vez ao ano que a gente é foda.  

Ser guerreira não é sublime, é cansativo e cruel.  

Se 8 de março é o Dia Internacional da Mulher, mas a nossa luta acontece todos os dias. Espero que um dia venha a trégua.