Monday, March 23, 2026

Veia musical

 Não tem explicação. Não vem de uma família de músicos. Mas adora (quase) tudo quanto é som. 

Seu pai gosta de música, sabe muito, mas não se compara ao seu dom. 

No primeiro acorde, você identifica a música e o artista. Logo vem toda a história sobre a composição. 

Sabe o momento da criação, se rendeu prêmios e arrisca até em falar que uma nota ou outra é plágio. 

Desgosta das traduções e versões na maoioria das vezes. Quer mesmo é escutar as originais. 

Dói no coração quando descobre as falhas humanas de um artista talentoso e tenta se ater à arte. Faz bem, se não vai se decepcionar com todo mundo, seres imperfeitos. 

Mas a criação, essa pode beirar a perfeição. Só depende da sua opinião.

Monday, March 9, 2026

Naversário é mais bonito

Toda criança deveria inspirar um dicionário, mas as bilíngues precisam fazer isso. 

Eu não me lembro de todas, mas você facilitava a pronúncia de um bocado de palavras da língua de Camões. 

Aniversário era Naversário. Televisão, tivisão. 

A cadeira combina mais com sentador. 

E até hoje as pernas não falham, elas falem - do verbo falir - com a dor. 

Sem dizer os palavrões como temperamental que soa bem melhor como taparamental. 

Português é, com certeza, um idioma mais complexo do que o inglês. Eu acho. 

Mas fica tão mais fofo em gringuês. 

Monday, March 2, 2026

Bonecas

Tem coisas que devem ser escritas para serem lembradas para sempre. Eu sempre digo isso, mas nem sempre o faço. 

Lembramos outro dia, por exemplo, de como você gostava de brincar de boneca e até hoje não tinha escrito sobre isso. 

Você tinha muitas filhas e cuidava bem delas. Era a mommy. 

Elas tinham nomes engraçados. Lembro bem da Omelete e da Abelha. 

Na hora de sair, nunca esquecia a bolsa, o telefone, o batom e uma filha. Aliás, estava sempre ocupada ao telefone e empurrando uma de suas bebês. 

Gostava de dar banho e trocar fraldas. Elas ficavam de ponta cabeça e nem reclamavam. Comiam bastante e levavam bastante bronca. Igual a Gigi. 

Você as colocava debaixo do braço para dormir. Não era assim que eu fazia com você, mas era assim que se aconchegava no seu pai. Devia ser confortável. 

À medida que você foi crescendo, as bonecas foram diminuindo e as preferidas passaram a ser as Barbies e as Princesas. Era muita estória. Tinha horas que você deixava elas pra lá porque havia cansado de falar. 

Já não era só mãe. Agora era intérprete das personagens da sua imaginação. 

Eu gostava de assistir. Às vezes filmava de longe. E em muitas outras eu até tinha participações especiais na brincadeira. 

Hoje algumas delas ainda te acompanham, embora estejam no fundo do armário. É difícil dizer adeus.