Travamos debates intermináveis sobre diversos assuntos e cada vez tenho mais certeza de que vai trilhar o caminho certo. Defende as suas ideias com afinco e vê o mundo sem preconceitos, muito mais do que eu. E olha que eu pensei ser a maior idealista do mundo.
Num desses dias, ouvindo você 'advogando' por alguma razão, lembrei da Gigi pequenininha. Estava nos seus 3 e 4 anos quando conhecemos uma família recém chegada do Brasil. Nós também tínhamos passado uma temporada por lá e você estava na fase de se comunicar melhor em português.
Os novos amigos tinham entre 2 e 5 anos. A menina era a mais e velha e o menino já carregava uma longa história. Não sei dar detalhes, mas ele tinha um (ou mais) tumor no pescoço, próximo à boca. Isso fazia com que essa região do rosto ficasse mais saliente, diferente.
A mãe das crianças se apaixonou por você e só mais tarde entendi o porquê. As brincadeiras rolavam soltas no condomínio, no parquinho e em qualquer lugar. Você nunca me perguntou o que ele tinha.
E isso era raro, me contou a mãe do menino em uma ocasião. A irmã dele chegou a escondê-lo embaixo da mesa em uma reunião de crianças na igreja, elas "tinham medo" dele. Você nunca percebeu o que era diferente.
Finalmente ele conseguiu acesso a um tratamento definitivo e foi fazer uma cirurgia. Quando eu te contei, você me perguntou o motivo do amigo ter ido para o hospital. Eu respondi que ele iria tirar a bolinha do do rosto.
Nesse momento você soltou: Que bolinha? Nunca percebeu.
Eu me emocionei porque você o via de verdade. A sua essência era capaz de enxergar a dele.
Hoje, vocês nem se veem. As crianças talvez nem se lembram dessa fase, mas a sua essência é a mesma. Eu tenho muito orgulho disso.