Monday, May 11, 2026

Mãe possível

Mãe possível. Li essa definição no texto de uma colega ontem e descobri que era por essa palavra que eu sempre busquei para substituir perfeição. 

Mãe perfeita, filho perfeito. Simplesmente não acredito, não é possível. 

E ser for, é frustrante. Eu erro tanto. 

Na hora do conselho, é comum eu me arrepender de uma palavra ou até de uma frase inteira. Nunca deveria ser dita. 

E se eu testemunhar uma trairagem?  Vem aquele palavrão que nenhuma mãe deveria soltar. Mas como alguém ousa fazer isso com a minha filha? Muitos ousarão e eu não posso impedir. 

A mim resta orientar sob o meu ponto de vista que pode não ser o certo e nem sempre você vai concordar. 

No final das contas, isso tudo é para esclarecer de uma vez por todas de que mãe não é heroína nem perfeita. 

Somos todas mulheres possíveis.  

Monday, April 20, 2026

Entre um comentário e outro vem a mordida

 Assistir a um filme ou uma série com o Max é um verdadeiro desafio. Ele gosta de dormir nessas horas, mas exige silêncio. E isso não combina com você em uma sessão. 

Pelo contrário. Se vamos assistir algo juntas, você sempre escolhe algo que já viu e gostou ou acredita que eu vou gostar.

Embora já me prepare para o enredo, o silêncio não vem com o filme. Você adora comentar, chamar a atenção para uma cena e surgir com um spoiler. Max não gosta disso. 

A cada palavra um ataque. Mordidinha de amor que deixa marcas. 

Eu mando você fazer pipoca para o seu próprio bem. Com a boca cheia, vai falar pouco e lidar com menos mordidas. Me engano. 

Não se aguenta. Mais um spoiler, mais uma mordida.

Monday, March 23, 2026

Veia musical

 Não tem explicação. Não vem de uma família de músicos. Mas adora (quase) tudo quanto é som. 

Seu pai gosta de música, sabe muito, mas não se compara ao seu dom. 

No primeiro acorde, você identifica a música e o artista. Logo vem toda a história sobre a composição. 

Sabe o momento da criação, se rendeu prêmios e arrisca até em falar que uma nota ou outra é plágio. 

Desgosta das traduções e versões na maoioria das vezes. Quer mesmo é escutar as originais. 

Dói no coração quando descobre as falhas humanas de um artista talentoso e tenta se ater à arte. Faz bem, se não vai se decepcionar com todo mundo, seres imperfeitos. 

Mas a criação, essa pode beirar a perfeição. Só depende da sua opinião.

Monday, March 9, 2026

Naversário é mais bonito

Toda criança deveria inspirar um dicionário, mas as bilíngues precisam fazer isso. 

Eu não me lembro de todas, mas você facilitava a pronúncia de um bocado de palavras da língua de Camões. 

Aniversário era Naversário. Televisão, tivisão. 

A cadeira combina mais com sentador. 

E até hoje as pernas não falham, elas falem - do verbo falir - com a dor. 

Sem dizer os palavrões como temperamental que soa bem melhor como taparamental. 

Português é, com certeza, um idioma mais complexo do que o inglês. Eu acho. 

Mas fica tão mais fofo em gringuês. 

Monday, March 2, 2026

Bonecas

Tem coisas que devem ser escritas para serem lembradas para sempre. Eu sempre digo isso, mas nem sempre o faço. 

Lembramos outro dia, por exemplo, de como você gostava de brincar de boneca e até hoje não tinha escrito sobre isso. 

Você tinha muitas filhas e cuidava bem delas. Era a mommy. 

Elas tinham nomes engraçados. Lembro bem da Omelete e da Abelha. 

Na hora de sair, nunca esquecia a bolsa, o telefone, o batom e uma filha. Aliás, estava sempre ocupada ao telefone e empurrando uma de suas bebês. 

Gostava de dar banho e trocar fraldas. Elas ficavam de ponta cabeça e nem reclamavam. Comiam bastante e levavam bastante bronca. Igual a Gigi. 

Você as colocava debaixo do braço para dormir. Não era assim que eu fazia com você, mas era assim que se aconchegava no seu pai. Devia ser confortável. 

À medida que você foi crescendo, as bonecas foram diminuindo e as preferidas passaram a ser as Barbies e as Princesas. Era muita estória. Tinha horas que você deixava elas pra lá porque havia cansado de falar. 

Já não era só mãe. Agora era intérprete das personagens da sua imaginação. 

Eu gostava de assistir. Às vezes filmava de longe. E em muitas outras eu até tinha participações especiais na brincadeira. 

Hoje algumas delas ainda te acompanham, embora estejam no fundo do armário. É difícil dizer adeus. 

Monday, February 23, 2026

Caracóis

 Você nasceu sem cabelo. Por muito tempo era só uma penugem. 

Seu pai diz que foi desejo dele. Acha lindo bebê careca. E realmente você era uma bebezinha linda. 

Você é linda. 

O cabelo liso cresceu um pouco e os cachinhos na ponta me lembravam uma boneca que tive na infância: a Risadinha. Quem é dos anos 80 deve se lembrar. 

Esse "corte" te acompanhou por anos sem nunca ter sido cortado. Entre os dois e três anos, você colocava uma toalha na cabeça, era o seu cabelo comprido. O bom é que trocava de cores toda hora.

Uma amiga me questionou: "Por que você não deixa o cabelo dela crescer?" 

Eu nunca cortei, Fernanda.

Aos poucos, bem devagar, o cabelo foi crescendo. Liso e encaracolado nas pontas. Disseram que quando cortasse o cabelo, os cachos desapareceriam. Não aconteceu. 

Pelo contrário. Agora o cabelo é mais encaracolado do que liso. Você briga com os caracóis. De onde vieram? 

A origem não tem explicação genética aparente, mas eu tenho uma teoria: é um dos detalhes que te fazem única. 

E é lindo!

Monday, February 16, 2026

Personalidade

Mais uma vez você me surpreendeu. Durante uma conversa trivial de almoço você dizia como o seu nariz é parecido com o do seu pai. Eu acho que tem uma pouco do dele e um pouco do meu. Você diz que isso é impossível. 

Eu me gabei dizendo que seus traços podem até ser a réplica do Beto, mas o conjunto fica parecido comigo. De novo, me retrucou ao apontar que cada vez mais pessoas falam que você se parece mais com ele. Antes era o contrário. 

Então você é a cara do seu pai e puxou a minha personalidade. Mais uma resposta que eu não esperava: personalidade cada um tem a sua. 

É verdade, você está certa. Você é única e nem se parece tanto com o seu pai, só um pouco.