Monday, June 1, 2026

Maternar

Maternar é o verbo do momento, mas nem está no dicionário. 

A palavra é usada principalmente em contextos afetivos, sociais e psicológicos. Segundo os usuários, maternar deriva de “mãe” e significa cuidar, nutrir, proteger e acolher com o afeto e a dedicação típicos da maternidade, mas não necessariamente ligado à figura biológica da mãe.

O termo ganhou força depois de um depoimento da jornalista Ana Paula Rennault, vencedora do BBB26 onde foi julgada pelo fato de não ser mãe aos 44 anos. Dentro e fora da casa, muitos ligaram o fato de sua "amargura" ao fato dela não ter segurado um bebê no colo. 

Ana Paulo aproveitou a deixa e bombou ao dizer  "existem mulheres que nasceram para maternar filhos, outras para maternar projetos, e outras para maternar sua própria reconstrução".

A mensagem foi abraçada por muitas mulheres que se sentem cobradas para terem filhos. Para outras, soou como ser mãe é falta de amor próprio. 

De fato, ser mãe exige tanto quanto ser uma boa profissional. Aliás, ser mulher exije muito. 

Além disso, não é necessário escolher um e preterir outro. 

Eu amo maternar a milha filha, os meus projetos e a mim mesma. É fácil? Nunca! Há falhas em quase todos os processos e o sucesso é relativo.

Ser mãe não me faz mais forte ou mais fraca. É apenas mais um caminho que eu escolhi e reconheço que, em certas circustâncias, a mulher não tem oportunidade de escolha. Muitas não conseguem engravidar outras são supreendidas pela gravidez, inclusive através de violência. 

Acho que aqui vou preferir a criação do verbo maternar no lugar do velho julgar. 

Monday, May 18, 2026

Parece com quem?

Temos conversado muito sobre aparência. O que é ser bonita?  E se é bonita parece com quem? 

Confesso que não tenho muita moral para debater. Sempre me considerei o patinho feio da turma, sofri com isso na adolescência. Entendo você, mas não te vejo assim. És linda e parece comigo. 

Esse é o ponto. 

Outro dia nós chegamos a essa conclusão ao comentar de tantos procedimentos estéticos que as celebridades se submetem em busca da perfeição. Agora, percorrem o caminho inverso. Desfazer para parecer natural. Você citou Kylie Jenner, mas há muitas outras. 

E, acredite, concordou comigo quando  eu questionei como essas mães vão falar para seus filhos, parecidos com elas ou com o que um dia foram, que são bonitos se elas mensmo quiseram mudar? Uma beleza que rejeitaram. 

As filhas da Maíra Cardi parecem com ela do antes ou do depois? E por aí vai. 

Você se parece comigo, mas com os traços do seu pai. E sabe por que? Porque és única como todo mundo o é. 



Monday, May 11, 2026

Mãe possível

Mãe possível. Li essa definição no texto de uma colega ontem e descobri que era por essa palavra que eu sempre busquei para substituir perfeição. 

Mãe perfeita, filho perfeito. Simplesmente não acredito, não é possível. 

E ser for, é frustrante. Eu erro tanto. 

Na hora do conselho, é comum eu me arrepender de uma palavra ou até de uma frase inteira. Nunca deveria ser dita. 

E se eu testemunhar uma trairagem?  Vem aquele palavrão que nenhuma mãe deveria soltar. Mas como alguém ousa fazer isso com a minha filha? Muitos ousarão e eu não posso impedir. 

A mim resta orientá-la sob o meu ponto de vista que pode não ser o certo e nem sempre você vai concordar. 

No final das contas, isso tudo é para esclarecer de uma vez por todas de que mãe não é heroína nem perfeita. 

Somos apenas  mulheres possíveis.  

Monday, April 20, 2026

Entre um comentário e outro vem a mordida

 Assistir a um filme ou uma série com o Max é um verdadeiro desafio. Ele gosta de dormir nessas horas, mas exige silêncio. E isso não combina com você em uma sessão. 

Pelo contrário. Se vamos assistir algo juntas, você sempre escolhe algo que já viu e gostou ou acredita que eu vou gostar.

Embora já me prepare para o enredo, o silêncio não vem com o filme. Você adora comentar, chamar a atenção para uma cena e surgir com um spoiler. Max não gosta disso. 

A cada palavra um ataque. Mordidinha de amor que deixa marcas. 

Eu mando você fazer pipoca para o seu próprio bem. Com a boca cheia, vai falar pouco e lidar com menos mordidas. Me engano. 

Não se aguenta. Mais um spoiler, mais uma mordida.

Monday, March 23, 2026

Veia musical

 Não tem explicação. Não vem de uma família de músicos. Mas adora (quase) tudo quanto é som. 

Seu pai gosta de música, sabe muito, mas não se compara ao seu dom. 

No primeiro acorde, você identifica a música e o artista. Logo vem toda a história sobre a composição. 

Sabe o momento da criação, se rendeu prêmios e arrisca até em falar que uma nota ou outra é plágio. 

Desgosta das traduções e versões na maoioria das vezes. Quer mesmo é escutar as originais. 

Dói no coração quando descobre as falhas humanas de um artista talentoso e tenta se ater à arte. Faz bem, se não vai se decepcionar com todo mundo, seres imperfeitos. 

Mas a criação, essa pode beirar a perfeição. Só depende da sua opinião.

Monday, March 9, 2026

Naversário é mais bonito

Toda criança deveria inspirar um dicionário, mas as bilíngues precisam fazer isso. 

Eu não me lembro de todas, mas você facilitava a pronúncia de um bocado de palavras da língua de Camões. 

Aniversário era Naversário. Televisão, tivisão. 

A cadeira combina mais com sentador. 

E até hoje as pernas não falham, elas falem - do verbo falir - com a dor. 

Sem dizer os palavrões como temperamental que soa bem melhor como taparamental. 

Português é, com certeza, um idioma mais complexo do que o inglês. Eu acho. 

Mas fica tão mais fofo em gringuês. 

Monday, March 2, 2026

Bonecas

Tem coisas que devem ser escritas para serem lembradas para sempre. Eu sempre digo isso, mas nem sempre o faço. 

Lembramos outro dia, por exemplo, de como você gostava de brincar de boneca e até hoje não tinha escrito sobre isso. 

Você tinha muitas filhas e cuidava bem delas. Era a mommy. 

Elas tinham nomes engraçados. Lembro bem da Omelete e da Abelha. 

Na hora de sair, nunca esquecia a bolsa, o telefone, o batom e uma filha. Aliás, estava sempre ocupada ao telefone e empurrando uma de suas bebês. 

Gostava de dar banho e trocar fraldas. Elas ficavam de ponta cabeça e nem reclamavam. Comiam bastante e levavam bastante bronca. Igual a Gigi. 

Você as colocava debaixo do braço para dormir. Não era assim que eu fazia com você, mas era assim que se aconchegava no seu pai. Devia ser confortável. 

À medida que você foi crescendo, as bonecas foram diminuindo e as preferidas passaram a ser as Barbies e as Princesas. Era muita estória. Tinha horas que você deixava elas pra lá porque havia cansado de falar. 

Já não era só mãe. Agora era intérprete das personagens da sua imaginação. 

Eu gostava de assistir. Às vezes filmava de longe. E em muitas outras eu até tinha participações especiais na brincadeira. 

Hoje algumas delas ainda te acompanham, embora estejam no fundo do armário. É difícil dizer adeus.