Friday, November 1, 2019

O que há de mau em trocar travessuras por doces?

Trick or treat? Essa é a frase que as crianças mais repetiram ontem nos Estados Unidos. Afinal¸ é Halloween e não tem nada de mal nisso.

As casas enfeitadas com figuras assustadoras ao invés de afastarem os pequenos aventureiros se tornam pontos de referência de que dali deve vir muitas guloseimas. “Quanto mais decorada, mais chances de ter doces”, avalia a Gigi, embora nem sempre seja assim.

Claro que o objetivo da troca de travessuras por doces é voltar para a casa com a cesta cheia de chocolates, balas e pirulitos. Mas curtir as decorações, vestir a fantasia e participar de brincadeiras também é divertido e saudável.

Na festa do condomínio, num Halloween antecipado, teve até casa do terror. Gigi adorou! Nunca vi gostar tanto de levar susto, bem diferente de mim.

Entre pizza, doces, decoração e brincadeiras vi crianças brasileiras que nem chegaram perto porque é “uma festa do mal”. Dentre tantas teorias sobre a origem do Halloween, nenhuma remete a um ritual satânico.

A Gigi, por exemplo, quis se vestir de gata, preta e branca igual a nossa Evie. Olha só que ato de amor, nada tem haver com maldade.

Mas claro que os pais têm a liberdade de educar os filhos da maneira que julgam melhor . Só não dá para esquecer que escolheram viver em um país, que embora seja protestante, tem o Halloween como o maior feriado não cristão.

Sem esquecer que o respeito deve ser mútuo entre quem não participa do folclore e quem decide brincar no Halloween.

Dessa vez, fiquei de cabelos em pé. Não porque eu vi um fantasma, mas quando soube que uma amiga da Gigi faltou ao Character Book Parade, um desfile em que as crianças vão fantasiadas do personagem do livro que estão lendo, para não participar da “festa de aniversário do diabo”.

E como se não bastasse, na saída da escola, uma menina contava, feliz, que sua sala havia ganhado doce quando foi interrompida por outra que disse que o “Halloween é de monstro e se a a professora deu doces não deve ser uma boa pessoa”.

Eu não consigo mensurar tanta ignorância, mas posso afirmar que fanatismo não faz bem.

Tuesday, October 22, 2019

Será que um erro justifica outro?

Tem sido cada vez mais difícil viver em um mundo dominado por lives, stories e selfies. O vídeo do MC Gui “zoando” uma criança na Disney, em Orlando, na Flórida, que viralizou desde ontem, toca bem nessa ferida. Confesso que senti um nó na garganta e me deu uma vontade enorme de colocar a Gigi numa redoma de vidro para protegê-la disso tudo.

Fiquei com raiva. Se eu estivesse no mesmo trenzinho que o pseudo-artista, ele ouviria umas boas ali mesmo, ao vivo e sem filtro.

E se fosse a minha filha? Hoje em dia a gente nunca sabe quando está sendo filmado, se alguém está nos achando esquisita.

De fato, nunca foi legal debochar de alguém, muito menos uma criança. Mas agora é mais do que ser alvo de um dedo e uma gargalhada. A vítima corre o risco de cair na rede e no mundo virtual o fato se multiplica, ganhando uma proporção ainda mais cruel.

Na gravação, MC Gui e os amigos riem enquanto o cantor filma a menina, visivelmente incomodada. Segundo o funkeiro, eles estavam se divertindo com a semelhança entre a garota e a personagem de animação de “Monstros S.A”.

Se por um lado a atitude estúpida do MC gerou uma onda de revolta e solidariedade, do outro expôs a problemática da mega exposição das crianças.

Como jornalista e mãe, a divulgação do rosto da menina nas mídias sociais e a reprodução pela imprensa me incomodaram muito. Ela aparece constrangida ao ser filmada por pessoas que riam dela, o que me leva a considerar que ela não gostaria de ver aquela situação sendo viralizada e, nesse caso, divulgar a imagem fere o direito da menor.

Na ânsia da revolta, e com toda a razão, as pessoas não perceberam que ao compartilhar o vídeo ou a foto, sem proteger a imagem da garota,  estavam potencializando o drama.

Eu jamais gostaria de ver a minha filha estampando as mídias em uma situação humilhante, ainda que despertasse comoção e compaixão. Isso é crime, portanto, passível de processo. Eu processaria. Mas acho que essa família nem sabe o que está se passando. Ninguém conhece os outros personagens do vídeo, além do MC Gui e sua trupe. 

Do ponto de vista jornalístico, a imagem do rosto da menina é dispensável. O fato por si só já é cruel. Ser submetido a uma exposição amplificada também é traumatizante. Não compensa.

A menina usava uma peruca da Boo e a aparência pálida e ausência de sobrancelhas levantaram a suspeita de que ela passa por um tratamento de quimioterapia, mas bastava descrever as características frágeis.

Aliás, esse é outro ponto para ser discutido. Não se sabe o real estado da saúde da menina nem a identidade ou a nacionalidade. Mas afirmam que é americana e já deram nome e diagnóstico. Se forem dados reais, de onde veio essa informação? Ninguém diz.

Ou seja, o MC Gui errou e errou feio. Merece todo o repúdio e ser penalizado para ver se aprende.

Mas e quem publicou e compartilhou a imagem da garota? Acho que temos que ir muito além do factual nessa discussão. Precisamos aprender também.

Thursday, October 10, 2019

E maldade tem explicação?

Muitas notícias têm me chocado ultimamente, mas falar da execução de uma criança de 8 anos pela polícia é muito cruel.

Gigi tem 10 e eu não consigo nem imaginar viver sem o seu sorriso. Me veio essa imagem porque é assim que a gente quer ver o filho, sempre sorrindo. E é assim que a mãe de Ágatha vai lembrar da menina.

“Mas por que Ágatha morreu?”, perguntou Gigi. Eu não soube responder, apenas enrolei com “a polícia está investigando”.

Que mundo estranho para ser explicado. O investigador é o principal suspeito. É mais um efeito colateral de um ato insano.

Sim! Porque o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, é louco (de ruim). Mais maluco que aquele rapaz que sequestrou um ônibus na ponte Rio-Niterói e o ex-juiz saiu comemorando o seu abatimento como um gol no Maracanã.

Muito estranho! Trocamos corruptos por criminosos do colarinho branco doidos, sem noção entre o bem e o mal. Fomos do ruim ao pior.

A ordem é atirar “porque bandido bom é bandido morto”. Atirar pelas costas e a queima roupa porque ‘pode’ ser criminoso.  Atirar sem se preocupar com quem está a sua volta.

Não interessa se é uma menina de sorriso lindo, um adolescente que sonha em ser jogador de futebol ou um pai de família a caminho de um chá de bebê.

Sobrevoar uma comunidade distribuindo tiros de cima para baixo e transformando escolas em trincheiras virou rotina.

E como vou explicar isso? No fundo Gigi sabe que maldade não tem justificativa.

Monday, May 13, 2019

Feliz Dia, mãe imigrante

Feliz Dia para você que sussurra confidências com a barriga e descobre nela um bom ouvinte, muitas vezes o único e com certeza o mais próximo.

Que sente falta da sua mãe ao ver o tempo passar e o seu corpo mudar. O colo faz falta, mas de longe tira o prazer do momento.

Que  chega mais cedo para a consulta e na sala de espera procura no dicionário as melhores palavras para descrever tudo o que vem sentindo nos últimos dias. Fica apavorada só de pensar em deixar algum detalhe de lado, falar diferente e, assim, prejudicar o bebê.

E, claro, essa cena depois se repete em todas as visitas ao pediatra.

Feliz Dia para você que trabalha até o último minuto antes do parto e se surpreende com a “boa hora” que sai completamente diferente do roteiro planejado. O que deveria levar poucas horas, dura quase um dia. Tempo finito entre dor e ansiedade que o amor maior do mundo te faz esquecer (depois de alguns anos).

Feliz Dia para você que não tem direito de tirar licença maternidade e volta ao trabalho três semanas após dar a luz com aquela culpa de passar o dia longe do bebê. Liga para a babá toda vez que senta para tirar o leite. E "paga mico" com aquela lancheira térmica cheia de leite materno que te acompanha por onde você vai.

Feliz Dia para você que se desespera com as cólicas e as lágrimas, mas se derrete com os sorrisos.

Que toma banho mais ou menos porque toda vez que liga o chuveiro, ele chora e você sai correndo.

Feliz Dia para você que dorme com o bebê do lado, amamenta a noite inteira e sai para trabalhar como um zumbi na manhã seguinte cheia de saudade.

Que transforma o seu filho em mascote do trabalho e desenvolve a capacidade de cumprir tarefas com ele no colo. Se divide em mil profissões,  trabalha dobrado e fica sem tempo para se dedicar ao blog.

Feliz Dia para você que recorre ao Youtube para aprender matemática e descobre que lá no Brasil te ensinaram de trás para frente ou vice-versa. Que não perde um evento na escola mesmo sem ter tempo para pentear o cabelo.

Que se culpa por não dar tanto o quanto queria, seja em tempo ou bens materiais.

Feliz Dia para você que só fala em português com seu filho, o ensina a amar o Brasil e respeita a adoração dele pelos Estados Unidos.

Que diz para acolher os recém chegados, mas vê o coração dilacerado quando a maldade é resposta e a outra mãe diz que é coisa de criança.

Feliz Dia para você que enfrenta tantos desafios ainda desconhecidos por mim.

Feliz Dia,  mãe imigrante,  que vive na terra em que o tempo voa e as 24 horas são cada vez mais curtas para cuidar do filho, da casa e da vida.

Feliz Dia das Mães, brasileiras nos Estados Unidos.

Monday, March 4, 2019

Gigi tira A+ em generosidade

Eu não cobro que a Gigi seja A+. Não pressiono por médias altas. Tento mostrar que o importante é sempre dar o melhor de si ainda que o resultado não seja 100%. Incentivo que superar as dificuldades pode ser mais prazeroso do que tirar notas boas constantes.

Mas exijo sim, na escola e na vida, que ela seja boa. Doe seu tempo, seja solidária. Se esforce para ser justa. Isso, algumas vezes, pode ser mais difícil do que um cálculo complicado de matemática.

Seja honesta, nunca tire vantagem do outro e sinta compaixão por quem sofre. Um sorriso pode ser mágico.

Brinque com a gatinha que a espera chegar da escola ansiosa.

Seja educada e respeite os mais velhos ou qualquer outra pessoa.

Defenda os amigos e aqueles que ela nem conhece contra o bullying, palavra que está na moda e nem sempre entende-se o significado, mas sente-se, e fundo, na pele.

Engana-se quem pensa que criança é boa por natureza. São seres humanos em desenvolvimento e vivem a fase que ainda dá para modelar o caráter. Depois fica muito mais difícil.

E por tudo isso hoje senti um orgulho danado quando ela recebeu o certificado por ser carinhosa.

Ela foi escolhida para representar todas as salas da quarta-série da escola pelas características de sempre cuidar e se preocupar com o próximo.

Ah, Gigi, com o mundo do jeito que está, com tanta maldade espalhada por aí, você renova as minhas forças. Posso não acertar em tudo, mas estou fazendo alguma coisa certa.

I am very proud of you, my beautiful girl! Thank you for being my gift of God.

Wednesday, February 27, 2019

Governo proíbe menores de 13 anos de postar vídeos no Tik Tok

Gigi adora assistir e gravar vídeos no TikTok. Hoje, quando chegou da escola, e como é de costume, não demorou muito para pegar o celular para “brincar” no aplicativo, mas teve uma surpresa. As publicações desapareceram.

E isso não aconteceu só com ela. Todas as publicações de crianças foram excluídas após uma exigência da Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC, na sigla em inglês) que encontrou evidências de que o aplicativo chinês viola leis de privacidade de crianças do país americano.

A partir desta quarta-feira, 27, todos os usuários do TikTok têm que verificar sua idade no aplicativo e menores de 13 anos são direcionados para uma plataforma diferente, mais restritiva, que tem maior proteção de dados pessoais e não permite que as crianças publiquem vídeos no aplicativo. Isso significa que elas só podem curtir os conteúdos e seguirem usuários.

O aplicativo chinês também foi multado em US$ 5,7 milhões por ter coletado dados sensíveis de menores de 13 anos, como e-mail e localização, sem o consentimento dos pais, o que é proibido pela lei americana.

Segundo o órgão federal, o processo começou desde a época do Musical.ly, que foi encerrado em 2018 e a base de usuários dele foi transferida para o TikTok, e já violava a legislação de privacidade de crianças.

Para se inscrever no app, é necessário um endereço de e-mail, número de telefone, nome e sobrenome, uma pequena biografia e uma foto de perfil, informações que podem ser vistas por outros usuários da plataforma.

Além disso, até outubro de 2016 o Musical.ly (TikTok) usava dados de geolocalização para sugerir aos usuários perfis próximos a eles e as autoridades afirmam que os adultos usavam o aplicativo para falar com crianças.

O combinado aqui em casa era sempre me mostrar os vídeos antes de postar e assegurar que não houvesse qualquer indício da localização, como o nome da rua, por exemplo. Mas hoje vi que isso não era suficiente.

Agora, Gigi vai ter que esperar  três anos e dois meses. Para ela parece uma eternidade. Para mim, é rápido demais.

Curiosidade: O Tik Tok foi o quarto aplicativo fora da categoria de jogo mais baixado em 2018, ficando atrás apenas do WhatsApp, do Facebook Messenger e do Facebook. De acordo com a pesquisa, o aplicativo chinês teve um bilhão de downloads em 2018, 663 milhões só no ano passado.

Sunday, February 24, 2019

Descobri o porquê eu tinha que aprender matemática


Matemática sempre foi um terror para mim. Não foi por acaso escolhi a área de humanas depois de um vestibular vocacional que pouco precisava fazer contas. 

Passei para a faculdade de Jornalismo com o alívio de que nunca mais precisaria encarar aquelas regras cheias de letras e números. Dali para frente, cálculos básicos, no máximo, porcentagem, iriam ser os meus desafios.

Mas isso era só mais uma conta mal feita. Esqueci de contabilizar que para realizar o meu maior desejo teria que ter várias facetas e fazer muitas coisas de novo, até aquelas que nunca gostei.

A matemática é uma delas.

Como mãe, sou um pouco professora da Gigi. Mas em muitos momentos sou apenas colega de aprendizagem.

Nos Estados Unidos a matemática é diferente. E lembra aquela máxima da matéria que a ordem dos fatores não altera o produto? Não cola com a Gigi.

Eu tento explicar álgebra do meu jeito. E logo vem a reclamação: “Não foi assim que a professora ensinou”.

Questiono como ela explicou. E segue a resposta: “Não entendi”.

Problema armado, recorremos às aulas de matemática disponíveis no Youtube para a quarta série.

Assistimos juntas. Parece complicado. Mais uma vez. Procuramos outro vídeo. Facilitou.

Voltamos para o exercício. Lemos em voz alta. Gigi se distrai com o meu sotaque. Troco a leitura para o português. Chegamos ao resultado.

Próximo exercício. Agora ficou mais fácil.

Tarefa cumprida. Até a próxima lição.