Monday, December 22, 2025

Papai Noel (não) existe

 Nem sei porque não escrevi sobre isso antes. Já se vão sete anos desde o último Natal que o bom velhinho era uma figura esperada e presente. 

Por motivos que já contei, há um bom tempo você desconfiava dessa estória. Mas foi durante um passeio no shopping, já próximo à Páscoa, que mais uma vez você me perguntou: 'Papai Noel existe?'. 

E eu, como já vinha fazendo há um bom tempo, respondi com outra pergunta: 'O que você acha?'. Dessa vez a sua resposta mudou tudo. Ao dizer não, eu que quis questionar: 'Por que'?. 

De pronto, a menina da Geração Z respondeu: 'Pesquisei no Google'. 

Ah, Gigi, eu imagino o quanto foi decepcionante para você descobrir que as cartas que  você escrevia iam para a minha caixa de recordação e os bilhetes que acompanhavam os presentes eram fruto da minha imaginação. O leite e as cookies também eram para mim, mas o amor era e é todo seu. 

Fico feliz, e aliviada, que a revelação também não tirou o brilho dessa época. Você ama decorações, assiste todos os filmes de Papai Noel, segue as tradições e deseja que fosse Natal o ano inteirinho. 

Além disso, como sempre foi, entende que o mais importante é o nascimento de Jesus. E esse Espírito nasce no nosso coração todos os dias, mas a gente tem que deixar. Lembre-se sempre disso, não é fantasia. 

Agora de volta àquele passeio ao shopping a maior decepção estaria por vir. Sem que você perguntasse, e apostando na sua boa reação ao descobrir que Papai Noel existe de outro jeito, seu pai resolveu revelar o mistério do Coelhinho da Páscoa. Aí foi um chororo que eu conto outro dia.

Monday, December 8, 2025

Eu te ensinei a falar, hoje você me corrije

Eu te ensinei a falar em português. Em inglês, você apreendeu sozinha e através dos cartoons e depois na escola. Por isso, é perfeito e nato. O seu “brasileiro” é fluente, avançado eu diria. O meu inglês continua o mesmo e você me corrige.

Seria um erro tentar te ensinar a falar em inglês. Sou imigrante e cometo deslizes, embora eu me gabe que o sotoque do norte do Paraná é um aliado, pelo menos quando se trata do sotaque da Nova Inglaterra e arredores.

Aliás, você é a americana mais parananense que conheço. O “r” puxado deixa o seu pai de cabelos em pé. Você não ‘naisceu’, você nasceu.

E é justo. Quando você tinha uns dois anos ninguém entendia o que você falava. Eu sabia tudo e traduzia para o resto do mundo – em inglês e português – o que você estava dizendo. Era incrível como a nossa comunicação era eficiente.

Com o tempo, você falava mais inglês. O medo se transformou numa naturalidade que eu queria ter.

Não sei se você se lembra, acho que já contei em outro momento, que aos três anos você só queria ir em lugares que falavam português. Tínhamos passado uns meses no Brasil e o idioma ficou mais próximo.

Aos poucos, as coisas foram se encaixando. Hoje você corrige o meu inglês e eu adoro ouvir as confusões que você faz em português. Outro dia você falou que “a perna faliu” ao invés de falar “a perna falhou”. Morre

Eu ainda vou escrever um dicionário para tantas palavras que fazem mais sentido que as reais. São pérolas e valem um post.

Monday, September 15, 2025

Coisas de general

Quando a gente está no meio de uma discussão, ou debate, não sei como definir, fico pensando como você vai ser com a sua filha. Lembro de como minha mãe era e tento não repetir as coisas que eu não gostava que ela fazia. Confesso que nem sempre é possível. 

Nessa hora, visualizo você, no futuro, sendo chamada de general. É assim que você me chama quando eu começo a enumerar a lista do que precisa ser feito. E nem é muito. Aliás, já no primeiro item vem o elogio.

Para um "alguma coisa" sempre tem um "mas".

Adolescente é contestador. Eu sou contestadora até hoje, mas acho que era menos na sua idade. Ou minha mãe era mais general. 

Minha avó dizia que eu tinha resposta para tudo e minha mãe nem sabia. Falava pelos cantos, por trás. Não havia essa abertura que tem comigo. Talvez seja coisa da época. 

Nossa casa certamente não é um quartel, mas um dia você vai entender que sempre haverá regras, em qualquer lugar. E para que as coisas  fluam bem é preciso seguir um roteiro ainda que nem tudo saia como no script. 

Eu não sou um general, sou mãe. Um dia você vai entender.

Monday, September 8, 2025

Você pode ser o que quiser

'Você pode ser o que quiser' parece um clichê. E é. Mas também é uma grande verdade. 

Você vai se lembrar disso a cada etapa da vida. Vai dizer que eu tinha razão, mas não gostava do meu tonzinho. 

E vai chegar onde quiser. 

Mas como tudo é um processo tem que pagar o preço. O nosso caminho depende do que decidir enfrentar. 

Escolher o que gosta de fazer facilita, embora isso não signifique facilidade. 

Muitas vezes o maior desafio vai ser encarar você mesma. Ter a ousadia para enfrentar o fracasso antes do sucesso chegar. Entender que o sucesso também é subjetivo. Pode ser milhares de seguidores ou gente que te acompanha porque realmente entende a sua proposta. A soma desses dois é sempre o melhor, concordo. 

Comece mesmo que não esteja pronto. Arrisque. Você pode. 

O importante é ter a manha para filtrar as críticas, se importar menos, fazer o bem sempre e ser feliz. 

Você pode (e vai) ser o que quiser. 


Monday, August 25, 2025

Cada movimento é um flash

Ter fotos de tudo é bom. Quando você era pequenininha cada momento era um flash e você gostava. Fazia pose e pedia para registrar os momentos. 

Agora os rolos de imagens do telefone e da nuvem funcionam com um túnel do tempo que nos remete àquelas experiências. Eu dou risada sozinha assistindo aos vídeos e vendo as fotos. 

Esses registros também são as provas daquilo que um ou outro não consegue lembrar. 

Mas depois que o filho cresce a mente da gente tem que ficar mais esperta. A fotógrafa agora tem que ser à paisana e quando é flagrada ouve: "Ah, mãe. Apaga isso!" ou Deixa eu ver! Tô horrorosa. 

Postar numa rede social é um atentado contra a privacidade e o pior é que você tem razão. Depois da denúncia do influenciador Felca, fiquei mais cautelosa. O conhecimento nos traz isso. 

Fotos que parecem inofensivas imagens de momentos para compartilhar com a família longe colocam você em risco se cair nas mãos erradas. Será que dá para enviá-las por WhatsApp para os avós?

Então fique tranquila. Para as redes as fotos não vão. Nem para cá. Só se atenderem os padrões de segurança, mas sobre isso a gente fala outro dia. 

Monday, July 28, 2025

O dia em que você me achou

Você vai odiar a história que vou contar hoje, diz que eu não tenho que contar isso para ninguém.  

Foi o dia mais desesperador da minha vida. Me senti a pior mãe do mundo quando te perdi na praia. Sim, eu fiz isso e quase morri. Mas você me achou. 

Fomos à Cocoa Beach, o cenário da famosa série de I Dream of Jeannie que o seu pai adora, quando você tinha 8 anos. Chegamos por volta das 10 horas e nos acomodamos ao lado do posto de salva-vidas, sempre achei mais seguro.

Aos poucos a praia foi enchendo de gente. Nesse tempo, você foi buscar água para fazer o nosso castelo. Era logo ali, mas em um minuto você sumiu. Tentei te avistar. Nada!

Avisei ao seu pai que você havia sumido. Ele virou um atleta e correu pra lá e pra cá perguntando se alguém havia visto uma menininha de biquini rosa. Nada.

Tia Suzana pegou o telefone e mostrava a sua foto. E eu questionando sem parar os salva-vidas se era possível você ter se afogado.

Papai temia um sequestro. São tantas crianças que desaparecem todos os dias, você não podia ser mais uma. 

Enquanto tio Bolacha continuava correndo de um lado para o outro, seu pai teve a brilhante ideia de que eu deveria ficar com o meu telefone. Você sabia o meu número. Ele tinha criado uma música e você cantarolava essa sequência.

Não deu outra. O telefone tocou. Eu não sei quanto tempo passou, mas uma mulher me ligou assim que eu peguei o telefone e disse que estava com você.

A essa altura a polícia já havia sido acionada. O helicóptero sobrevoava a praia. E eu estava desesperada.

Você andou mais de 30 minutos com o baldinho cheio de água até ter coragem de pedir para a moça me ligar. Eu fui de carona no buggy dos salva-vidas para te buscar. O policial já estava ao seu lado.

Eu agradeci aquela mulher, que eu nunca soube o nome, milhares de vezes. Ela deve ter me achado uma doida desvairada: como pode perder uma menininha?

Voltamos com o baldinho cheio de água. Papai estava muito bravo, mas era desespero.

Eu não sei como eu não desmaiei. Me senti a pior mãe do mundo. E fui. 

Mas você me encontrou. Como sempre, foi muito mais esperta do que eu. 

Monday, July 14, 2025

Patriota de opinião

 Você tem personalidade forte e opinião formada sobre tudo. Tudo mesmo. 

Nesse momento tão injusto [na minha concepção] nos Estados Unidos, você decidiu fazer uma homenagem em forma de protesto no Dia 4 de Julho. Cidadã americana nata, consegue ver mais motivos para protestar do que para celebrar a independência do país. 

Mas o patriotismo, que é bonito do americano, pesou e você me perguntou se não seria vista com bons olhos por isso. Como te disse, isso não importa. O importante é expressar a sua visão de forma respeitosa. Afinal o 4 de Julho não apaga o que vivemos hoje. 

Aliás, o protesto é a maneira mais genuína de ser patriota. Lutar pelo direito de ser Estados Unidos, terra da liberdade e da oportunidade.